O coração de Viana: história, significado e como é feito
O símbolo mais reconhecido da joalharia portuguesa: de onde vem, o que representa e o trabalho de filigrana que está por trás de cada coração.

Se há uma joia que representa Portugal, é o coração de Viana. Aparece em montras de ourivesarias de norte a sul, em lojas de recordações, em capas de revistas e ao peito de quem desfila nas festas do Minho. Mas por trás de um símbolo tão reconhecível há uma história de devoção, de traje e de um ofício muito exigente.
De onde vem
O coração de Viana está ligado a Viana do Castelo e ao Minho, a região do noroeste de Portugal onde a filigrana se tornou uma tradição de família. A tradição associa a sua forma à devoção ao Sagrado Coração de Jesus, muito promovida em Portugal no final do século XVIII, no reinado de D. Maria I.
Daí a forma característica: um coração, muitas vezes rematado no topo por uma chama ou por um laço, com o interior preenchido por filigrana. Com o tempo, o significado religioso foi-se misturando com o significado afetivo, e o coração tornou-se também um símbolo de amor e de compromisso.
O ouro ao peito
No Minho, o ouro tinha um papel que ia além do enfeite. As famílias investiam em peças de ouro — corações, arrecadas, cordões, contas — que se usavam nas festas e que funcionavam como reserva de valor, passando de mães para filhas. O conjunto de ouro que uma mulher usava dizia muito sobre a sua casa.
Ainda hoje, na Romaria de Nossa Senhora d'Agonia, em Viana do Castelo, as mulheres desfilam com o traje tradicional e o peito coberto de ouro, num dos momentos mais conhecidos da festa. O coração é presença obrigatória.
O que significa hoje
O coração de Viana oferece-se em noivados, casamentos, nascimentos e aniversários importantes. Muitas famílias guardam corações que passaram por várias gerações. Para quem vive fora de Portugal, é também uma forma de levar consigo um pedaço de casa.
Também se tornou um símbolo gráfico: aparece em azulejos, cerâmica, tecidos e ilustração. Mas a peça original — a joia em filigrana — continua a ser feita à mão, como há séculos.
Como se faz um coração de Viana
Um coração de Viana em filigrana segue as etapas clássicas da técnica, explicadas no nosso guia sobre a filigrana portuguesa:
- O contorno — um fio mais grosso desenha o coração e as divisões interiores, incluindo o remate superior.
- O enchimento — o fio fino, torcido e laminado, é enrolado em espirais e encaixado em cada espaço.
- A soldadura — tudo é unido com solda e maçarico, com muito cuidado para não derreter os fios finos.
- O volume — muitos corações são feitos em duas metades abauladas, unidas depois, o que lhes dá relevo.
- Os pormenores — pequenas bolinhas de metal (granulado), argolas e o remate final.
Um coração grande em ouro pode exigir dias de trabalho. Por isso as peças feitas à mão têm um valor muito diferente das versões estampadas ou fundidas em série.
Como reconhecer um coração feito à mão
- Os enchimentos têm pequenas diferenças entre si; nas peças estampadas, tudo é idêntico.
- O fio tem a torção visível e brilha de forma irregular.
- A peça é aberta — a luz passa entre os fios.
- Em ouro ou prata, deve ter as marcas de contrastaria. Explicamos como as ler em marcas de contrastaria.
Cuidar de um coração antigo
Os corações antigos sofrem com o uso: perdem enchimentos, amolgam, soltam argolas. Não os tente endireitar em casa. No nosso serviço de restauro de filigrana reconstruímos os fios em falta com a mesma técnica com que foram feitos.
Fazer o seu próprio coração
No workshop de filigrana, em 3 horas, aprende os princípios que estão por trás de cada coração de Viana: a construção do fio, a composição do desenho e a soldadura. E leva para casa uma peça feita por si.

Workshop de Filigrana Portuguesa
3 horas, sem experiência prévia. €150 por pessoa.
Ver workshop e marcar
by Lea Nogueira
